Em direção ao futuro primitivo II

Column: Modernidade e Tecnologia
Author: Marcel Dias Pitelli

Em direção ao futuro primitivo II


Em direção ao futuro primitivo II

Será que o mundo como ilustravam as vinhetas e filmes mudou? O velho jargão diz que a informação passou a ser duplicada em intervalos de tempo cada vez menores. Será os nano chips ou um ser humano sistematizado como nunca antes?

Primordial ao que viria sucedê-lo, o período que se estende entre o final do século XIX e inicio do XX trouxe várias transformações à vida em sociedade, aos modos de produção e escoamento de mercadorias. Por certo, tudo mudou, inclusive as milenares culturas do Oriente. Na China, a cidade de
Fengjie foi submersa para a construção da represa das Três Gargantas. O Muro das Lamentações pode ser acessado por internet.

 

 

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Primeiro aparelho de TV a ser comercializado
 

 O frisson teve inicio com a invenção do tear na Inglaterra; após isso, veio a locomotiva, o saneamento e os sistemas de aquecimento/refrigeração. Sem esses artifícios, muitas coisas que na modernidade nos passam despercebidas [banalizadas] simplesmente não existiriam. Uma delas, o computador.

 

 

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WOWvx da Philips com display em 3D

 
Com o entre - guerras, queiramos ou não, a produção voltada para o arsenal bélico trouxe uma contribuição inestimável. A energia nuclear, o nylon... A Guerra Fria foi um período em que se incrementou a comunicação e a telefonia por conta da espionagem entre EUA e URSS. E assim seguimos, a primeira faixa, a que compreende os anos 60 até meados de 80.

A partir daí, com a globalização, uma tamanha complexidade dos fluxos fez com que duas realidade coabitassem: a que retoma o retro, o clássico decô e nouveau, o parnasiano e os refaz para a modernidade; a outra, e que mais nos interessa aqui, encenada a períodos cada vez mais curtos. Não fosse a impressão que a Terra rotacionava mais rápido, muitos diziam que estávamos próximos ao apocalipse. Dos anos 80 a 90, tivemos outra faixa significativa e que foi se encurtando ao ponto da reinvenção se dar a cada 5, 2, um ano. A era em que se fala na reutilização do dirigível e, ao mesmo tempo, na decadência do Concorde.
 

 

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 O sári e o Laptop
 


Não é para menos, se fôssemos representar os períodos que se seguem a partir do final do século XIX, somente um tipo de função poderia representá-los. Do primeiro modelo Ford, o uso do aço na construção civil e o incremento dos transportes à televisão e o computador; acelerado esse quadro, desenbocaremos no LCD, o flatron e digital, para a Apple e Microsoft, Sony e Samsung. O que virá depois do display sensitivo? Não haveria outra forma de representar as eras tecnológicas senão por uma ‘exponencial’.


Não é preciso recorrer às HQs dos anos cinqüenta para presenciarmos tamanha ficção. Ela está na sucessão de quadros num DVD, na forma como os aparelhos revolucionam inclusive a sociabilidade na nova era. Compartilhamento é a palavra certa, P2P, banda larga e TI [Tecnologia da Informação] para gerir tudo isso.
 

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Fone compartilhado


Podemos não nos dar conta - entorpecidos ou indiferentes -, mas, à medida que se sobrepõem os saltos tecnológicos, configuram o espaço de tal forma, que neles nos desencontramos, reinstitui-se a própria identidade. Uma gentil senhora, por exemplo, que foi viver dois anos no interior e, ao retornar para seu apartamento no centro, talvez não veja mais a mesma metrópole. Pode ser que tudo esteja em seu perfeito lugar, mas há uma sensação de deslocamento. No outdoor que teria reluzindo em frente a sua janela, que diferença faria, fosse um Motorola ou um ícone universal da moda, a magreza? Isso se chegasse a seu apartamento; pois que teriam instalado um novo modelo de elevador, ‘digital’. 

Salvo os observadores do cotidiano, que se dedicam a entender esses processos, precisamos é reconhecer que, fora o desgaste, talvez não tenhamos plena condição de acompanhá-los como antes. Mal fomos introduzidos ao DVD, já temos o HD DVD, o Blue-Ray. O Ipod ainda não pôde cair de preço no Brasil, e ontem [29/06] já se lançou o Iphone. Os aparelhos celulares, sem dúvida, compõem um grupo sempre renovado em períodos cada vez mais curtos, sobretudo pelo público jovem, sempre em busca de status.
 

 

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Iphone da Apple (Esquerda para direita: GoogleMap, página web, menu, MP3, ligação)


As novas regras? Para começar, o design há muito está em alta, ainda mais que a função; o reto e simétrico pesam sobre o orgânico; o prata, translúcido e preto só arrematam uma das mais inteligentes composições a seduzir o consumidor moderno, ávido por status e diferenciação. São todos elementos diretamente comunicados às novas escolhas de novos tons para as tintas, a construção civil e decoração, a moda e as tendências da cirurgia plástica mundial. Em contraponto, o retorno dos materiais naturais e a preocupação com a reciclagem, o aquecimento global. E vejam, nem teríamos riscado a ponta do iceberg.

 
 

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         Interior de concha; o design do futuro vem da natureza


Muito antes de pensarmos na desestruturação que tudo isso nos proporciona, somos alvejados por valores nada inerentes a nós. Uma sina nesta pós-modernidade: por mais que desejemos e a realidade assim nos impute, não somos nem podemos ser perfeitos. Tentamos, e como pagamos caro por isso. Os índices de ansiedade, depressão, suicídio, distúrbio alimentar... Estão todos aí, gritando: Não seja o que você não é; conhece-te a ti mesmo! Enquanto isso, as novelas e o som portátil [MP3] mais nos servem a simular nosso maior desejo, somos deuses inquebrantáveis.

Movidos a fortes oscilações e tanta abstração, estamos é sujeitos a todo um repensar da realidade. Não pela forma como o futuro nos trará conforto e facilidades, mas como nos posicionaremos perante o excesso, os gadgets e sua convergência. Será que faremos desse metal frio uma extensão de nossa debilidade; pior, em que medida ele vai nos reconfigurar feito software, nessa simbiose, carne e vazio? O que será nosso e o que será robótico? As novas próteses, os métodos de reprodução de órgãos e procedimentos cirúrgicos pouco invasivos, como se projetam para os anos, são apenas o inicio.
 

 

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Andróide


Uma era de insegurança, em que se requer controle: do ato de nascimento à morte, monitorados em todos os lugares e situações, por câmeras e chips. Uma era em que não podemos e nem desejaremos cometer erros e que, portanto, nos levarão a um novo sentido de aprendizado; de estimulantes que teremos de consumir para não esmorecer; de frieza e indiferença para com o outro. Mas espere! Nós já somos assim. Então, o que viria além da pós-modernidade, do sarcasmo e individualismo?

O amor se fez sistêmico, os relacionamentos são tão descartáveis quanto virtualizados. MSN, Orkut, My Space... Todos eles revolucionaram a sociabilidade. Ao mesmo tempo, no entanto, erigiram esta terrível ponte, entre aqueles que dominam os novos portais e o ‘resto‘, os que simplesmente não podem compreender a nova linguagem simbólica.

Uma era em que se confessar triste ou confuso, em que se reconhecer fracassado para os padrões, é mostrar-se suscetível; se não se encontra um rival à altura, para quase tudo há diagnóstico e tratamento. Não devemos nos preocupar. Interligadas ao sistema nervoso, as células robóticas nos recomporão em doses alternadas de calmantes e estimulantes, uma provável reencenação da vida cataplética em sanatório. O melhor disso tudo é que, ao acaso de não conseguirmos dormir à noite, desligar a TV ou deixar de comprar, ainda podemos nos confessar online. Que venham os Sitcoms, a comédia sarcástica e a literatura do absurdo!

 

 

 

Published:  30/06/2007